29/06/2020 10:00
Elevando o tom na estratégia de inclusão LGBTI no mercado de trabalho

“Você acha que eu vou convidar representantes dos RHs das empresas para um evento e pedir que contratem travestis? Impossível!”. Foi isso o que eu ouvi de um ex-secretário do Trabalho e Desenvolvimento Social do Estado do Ceará, em uma reunião onde apresentei um plano integrado de promoção de ambientes de trabalho inclusivos e da empregabilidade de pessoas LGBTI+ no mercado de trabalho cearense, que desenvolvi durante 4 anos de pesquisa e trabalho em ONGs e no setor privado.

O Brasil não é somente o país que mais mata pessoas LGBTI no mundo, mas também protagoniza diversas outras agressões sistemáticas contra esses corpos que barram seu acesso à cidadania, através da negação de uma educação de qualidade, de um serviço de saúde humanizado e de direitos humanos como o emprego e a renda.

Aqui, o movimento social se organizou fortemente contra a discriminação no ambiente de trabalho durante a ditadura, mas esse debate ficou em segundo plano nas últimas décadas, uma vez que o histórico de assassinatos contra pessoas LGBTI+ no Brasil indica a existência de um plano de extermínio de nossos corpos, patrocinado inclusive pelo Estado e amparado pelo setor reacionário na política brasileira, onde a defesa do direito de viver da pessoa LGBTI+ se tornou a principal pauta do movimento até hoje. Até porque nada antecede o direito à vida.

Uma pesquisa do Ibope, em 1998, relatou que 60% dos brasileiros não contratariam um homossexual. Os tempos mudaram um pouco de lá pra cá. Uma outra pesquisa, realizada pelo Pew Research Center, em 2014, revelou que 60% dos brasileiros acredita que a sociedade deve aceitar a homossexualidade como algo normal. Na prática, esse desejo de “normalidade de tratamento” passa a ser questionado uma vez que pessoas LGBTI+ ocupam espaços de poder e a competir pelas posições anteriormente monopolizadas pelas pessoas heterossexuais e cisgênero no Brasil.

Uma pesquisa realizada pela Santo Caos, em 2017, mostra que 33% das empresas brasileiras não contratariam LGBTIs para cargos de chefia. O Vagas.com – um dos maiores portais de contratação profissional no Brasil – fez um levantamento sobre quais eram as vagas que mais eram preenchidas por pessoas LGBTI, sendo elas: cabeleireiro, atendente de loja (moda feminina), maquiador, comissário de bordo e estilista. Entre as menos ocupadas por pessoas LGBTI+ estavam: gerente financeiro, diretor de produtos, presidente de empresas, analista de sistemas e analista de crédito. Isso é revoltante, uma vez que nossos espaços na sociedade parecem ser pré-determinados por estereótipos que limitam o potencial e as oportunidades dos nossos seres. Não há nada de errado em trabalhar nessas áreas, mas nossos destinos não podem estar limitados a elas. Lugar de LGBTI+ deve ser aonde ele ou ela quiser. Logo, a resistência que o secretário de Estado mencionado acima demonstrou não é isolada, mas me assusta que esse tipo de visão permaneça na gestão pública pautada no trabalhismo.

O caso da discriminação contra pessoas trans e travestis apresenta uma falha no próprio sistema da nossa democracia de direitos ao demonstrar claramente que, por conta da discriminação, mesmo em um ambiente com ampla disponibilidade de vagas de emprego, essas pessoas ainda não conseguiriam acesso a tais vagas. Essa é uma realidade que precisa mudar. Transfobia é crime desde 2019 no Brasil e a discriminação no mercado de trabalho está inclusa na decisão do STF que proibiu tal prática.  A falta de acesso ao emprego digno também mata!

Só que simplesmente o acesso ao emprego não resolve o problema. Se o Brasil quiser realmente incluir as pessoas LGBTI+ de forma correta, será necessário desenvolver uma cultura inclusiva e emancipadora nas empresas, onde as lideranças assumirão o compromisso transversal de suas pessoas jurídicas com a inclusão em seus discursos e posicionamentos, criarão políticas de não-discriminação, canais de denúncia internos, programas de conscientização e educação pela diversidade, treinarão seus gestores em diversidade e inclusão, criarão de grupos de afinidade para debater e definir ações afirmativas para a causa na empresa, revisarão processos de recrutamento retirando viés discriminatório, contratarão mais pessoas LGBTI+ e garantirão equidade salarial e promoção de carreiras. Uma empresa inclusiva faz esse tipo de coisa, e não somente cria produtos e serviços com a bandeira LGBTI+ e personalidades da causa no Brasil, como tá na moda por aí. É preciso questionar até mesmo se os profissionais de marketing que estão criando produtos e serviços pra nossa comunidade nessas empresas são LGBTI+.


Ítalo Alves é cofundador da startup social LGBT TODXS, coordenador regional da Aliança Nacional LGBTI, membro do comitê estratégico do Movimento Acredito e um dos fundadores do Global Shapers Fortaleza – coletivo de jovens ativistas vinculado ao Fórum Econômico Mundial. O texto foi publicado originalmente no site Mídia Bixa. 

 

 

 

 

Os textos publicados nesta coluna não refletem o posicionamento do Grupo Cidade de Comunicação.

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