18/05/2020 08:00
Normalidade Perversa

Durante a Segunda Guerra Mundial, o genocídio de judeus, ciganos, homossexuais e negros ocorria num processo de escala industrial, inclusive nos dados estatísticos daqueles sacrificados nos fornos da morte, queimados como em churrascos. Ao mesmo tempo em que isso acontecia ininterruptamente dia e noite, a hierarquia governamental do Estado Nazista levava uma vida paralela, dita "normal", com direito a festas, cafés, e burocracias rotineiras. Junto a eles estavam seus familiares, amigos e conhecidos. Viviam, assim, uma vida “normal”.

Aquela guerra mundial começou em 1939, todavia, a perseguição àqueles que seriam anos depois assassinados iniciara-se bem antes, em 1933, quando Adolf Hitler chegou ao poder.  

As Leis de Nuremberg (em alemão: Nürnberger Gesetze), já antecipavam o terror. A morte civil já se tornara legal, aceita e publicada na Alemanha quando, especialmente, para os judeus, foram proibidos os casamentos e relações sexuais fora do casamento entre judeus e alemães, o emprego de mulheres alemães com menos de 45 anos de idade em casas de judeus, assim como a determinação formal, através da Lei da Cidadania do Reich, que apenas aquelas pessoas com sangue alemão, ou sangue relacionado, eram elegíveis para serem cidadãos do Reich, demais restantes eram classificados como sujeitos do estado, sem qualquer tipo de direitos de cidadania. As leis foram expandidas a 26 de Novembro de 1935 para incluírem os ciganos e os negros. Este decreto suplementar definia os ciganos como "inimigos do estado racial", a mesma categoria dos judeus. O terror se alongava para pessoas com demências variadas, com necessidades especiais e de ideologia distinta a da situação. 

O horror iniciou-se e foi posto em prática oficialmente, posto que era legal e, portanto, público. 

O primeiro campo de concentração, Dachau, foi criado em 20 de março de 1933. Com isso, as deportações seguiram-se, bem como a criação de outros tantos campos, antes, portanto, da guerra, em tempos de "paz". 

O vizinho desapareceu, o  médico fechou o consultório, o professor deve ter se mudado, e, com eles, milhares de outros. As regras eram sabidas por todos e todos sabiam o que significavam tantos sumiços. Não houve inocência por parte daquela geração. 

Acontece que, para a maioria, optou-se por seguir-se a vida normal. E isso significava: fazer de conta que os líderes tudo podiam, manisfestar opiniões sem se comprometer, continuar a frequentar nos restaurantes, nas lojas de modas e café, fazendo o tipo "homens de bem",  para utilizarmos expressão tão atual. Acontece que a morte, estava ali, do lado.  

Aquele vizinho, o antigo médico, a professora da escola, o advogado culto, o garçom simpático, o lixeiro de muitos filhos e todos aqueles que sumiram, estavam ali, do lado, dentro do próprio país, num campo de concentração, sofrendo os horrores do inferno. 

Não aprendemos com o passado, por mais cruel que ele tenha sido. O atual escárnio com a morte de milhares, com o luto de tantos, com o sofrimento dos doentes nas camas e chãos dos hospitais e casas,  com o heroísmo dos que cuidam na chamada "linha de frente", o grito blasfêmico "E daí" até as descabidas postagens nas redes sociais de ostentação doméstica, com bebidas e iguarias caras, enquanto muitos já não tem trabalho nem comida, comprovamos novamente a repetição da opção pela vida “normal”, da normalidade perversa.

Vanilo de Carvalho, advogado, professor universitário, especialista em Direito Constitucional, mestre em Direito Internacional, conselheiro da Ordem dos Advogafos do Brasil, membro da Comissão Nacional do Exame de Ordem (Brasília) membro do Instituto Ph, membro da Academia Brasileira de Cultura Jurídica, Cavaleiro da Ordem de Malta (Roma), membro da Comissão de Justiça e Paz (vinculado à CNBB), escritor, analista político-social, educador jurídico.

 

Os textos publicados nesta coluna não refletem o posicionamento do Grupo Cidade de Comunicação.

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