11/05/2020 07:35
Você é “vivedor” ou “morredor”?

Certa vez, minha mãe foi a um famoso oncologista. Ele disse a ela que existem dois tipos de pacientes: os “vivedores” e os “morredores”. O índice de recuperação dos “vivedores” é absurdamente mais alto que o dos “morredores”. O primeiro grupo acredita que vai viver e, portanto, não se entrega. Segue à risca o tratamento e vive intensamente cada segundo da vida que potencialmente escapará das suas mãos mais rápido que o previsto. O segundo se entrega, já sai derrotado na primeira consulta, acha que nada dará resultado e simplesmente espera pela morte.

Hoje em dia, tenho me deparado exatamente com esses dois grupos, na forma de encarar e viver o dia a dia, diante da crise global que estamos passando. Uns já eram pessimistas por natureza. Outros, embora otimistas, eram talvez otimistas de ocasião, porque nunca tiveram o seu otimismo verdadeiramente colocado à prova.

O pior de tudo são os prognósticos feitos por especialistas, baseados em variáveis futuristas catastróficas que ninguém tem a competência de fazer. Esses, pior que os pacientes morredores, são os médicos morredores. Com todo o respeito aos especialistas, só prestam um desserviço com declarações como o mundo irá se “desglobalizar” e tudo daqui para a frente será nefasto para a economia.

Não se trata aqui de ser negacionista e menos ainda de minimizar os efeitos do que estamos passando na economia. Mas o que eles esquecem é que estamos falando de gente com fé, de EMPREENDEDORES (sim, tudo em letras garrafais), de uma geração chamada de “mimizenta” apenas porque quer ser feliz e não aceita coisas que nós, velhos, aceitamos. Esquecem-se de que são todos “vivedores”.

No mundo real desses “vivedores”, e longe das calculadoras dos especuladores que nunca geraram riqueza para a sociedade, o que eu vejo são empresas modernas focadas em limpar o planeta via economia circular. Elas sabem que nós, humanos, não vamos deixar de existir na Terra e, portanto, vamos continuar a consumir e infelizmente a gerar lixo que, graças a Deus, será tratado por essas empresas.

Vejo negócios que se preocupam com a educação da primeira infância em comunidades carentes. Para o espanto dos “morredores”, crianças continuarão nascendo e merecendo cuidados porque as suas mães continuarão trabalhando. Algumas dessas mães que não conseguiam trabalhar porque não tinham com quem deixar as tais crianças (que vão continuar insistindo em nascer) passaram a trabalhar em uma empresa de call center, com 100% dos colaboradores atuando em suas casas.

Esse mundo que eu vejo não é sonho, não é catastrófico e está acontecendo agora, no meio dessa pandemia, e é capitaneado por um bando de gente teimosa em viver e que nunca vai deixar de acreditar que vai dar certo.

Mas, se isso não é suficiente, vamos a algumas especulações sobre comportamento humano. Você que está agora em casa, lendo esse texto, está sentindo falta de alguma coisa? Lógico, você está sentindo falta de um monte de coisa. Assim que for seguro sair de casa, o que você irá fazer primeiro? Andar por aí? Comer um pastel na feira? Beijar alguém? Viver a vida mais intensamente e mais seletivamente? O que mais você vai fazer quando a pandemia passar? A sua resposta está diretamente relacionada ao futuro da economia e do planeta e aos nossos hábitos de consumo.

Agora vamos a alguns fatos: depois da Segunda Guerra Mundial, tivemos o boom econômico pós-guerra, ou era de ouro do capitalismo. Esse período de prosperidade durou desde 1945 até o início de 1970.

Após o fim do surto de gripe espanhola, um estudo de Sergio Correa, do Banco Central americano, Stephan Luck, do Banco Central de Nova York, e Emil Verner, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, analisou a recuperação econômica em 43 cidades norte-americanas. A conclusão foi que as atividades econômicas se restabeleceram mais rapidamente em locais onde as autoridades adotaram medidas para conter a expansão da epidemia, em comparação com áreas que não tentaram reduzir o contágio.

Naquelas cidades, as ações preventivas precoces e mais intensas não agravaram a crise econômica. “Pelo contrário, cidades que intervieram antes e mais agressivamente experimentam um aumento relativo do emprego na indústria, da produção industrial e dos ativos bancários em 1919, após o fim da pandemia”, afirma o estudo.

Esses dois exemplos mostram a recuperação em tempos quando não existia internet, telefone celular, teleconferência, delivery, consulta remota, sequenciamento genético, tratamento de câncer por imunoterapia, viagens espaciais, clones, impressão de órgãos em 3D, tratamento da AIDS (nem AIDS), superantibióticos, nano robôs, pâncreas artificial, gel reparador de coração, entre outras coisas – várias delas criadas nos últimos dez anos.

Fora isso, eu não acredito na afirmação de que a cooperação entre países acabou. Essa cooperação não pode ficar pior do que já era. Ao contrário, essa pandemia trouxe de volta valores que já estavam esquecidos, como a solidariedade e o senso de que não se prospera se a sociedade e o planeta não prosperarem. Trouxe também alguns valores que eram marginalizados, ridicularizados e negligenciados, como o perigo que é não cuidarmos do meio ambiente e da sociedade e desvalorizarmos a ciência. Então, com todo o respeito, deixem os VIVEDORES falar, prosperar e VIVER!

 

Carlos Miranda é CEO da X8 Investimentos, gestora com foco em investimentos 100% de impacto

 

 

 

Os textos publicados nesta coluna não refletem o posicionamento do Grupo Cidade de Comunicação.

 

 

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