29/04/2020 01:00
Cultivando garrafas

Reconheço que tenho sido enfadonho em replicar o mantra: “os efeitos danosos da pandemia têm sido inferiores aos provocados pela pandemonia”, esse neologismo que me permiti criar, abusando e me afoitando na liberdade conferida somente aos escritores imortais.

Contudo, não há como adjetivar esse pandemônio ruidoso, onde impera uma grande confusão, um verdadeiro inferno, na acepção literal da palavra, ocupado por demônios, onde todos se arrogam detentores da razão.

A sociedade vem, a cada dia, demonstrando um alto grau de infecção que alcançou, indistintamente, todas as camadas, onde as vaidades, os interesses políticos, as prepotências, entram em constante ebulição, dificultando, sobremaneira, a construção de uma rota segura que conduza a uma expectativa de sobrevida, com menos traumas e sequelas.

O entendimento pacificado, em todos manuais atualizados de economia, por conta mesmo do enfrentamento de crises anteriores é o de que os mecanismos autorreguladores do capitalismo não são suficientes para manter a economia nos trilhos, em momentos que tais.

Em 1926, o velho Keynes difundia a teoria que rompia totalmente com a ideia liberalista do “laisser faire”, apontando uma saída para a profunda crise, então vivenciada, afirmando que o Estado deveria, sim, interferir na sociedade, na economia e em quaisquer áreas que entendesse necessário.

Para a escola keynesiana o déficit público é o principal instrumento de política econômica para amenizar os efeitos do ciclo caótico das finanças desequilibradas. Assim, durante a recessão, como a que estamos vivenciando e iremos enfrentar no “day after” coronaviano, o governo deve intervir, reduzindo tributos, promovendo a expansão do crédito e o aumento dos gastos, realizando investimentos capazes de estimular a economia onde o déficit público deve se expandir de modo a restabelecer o equilíbrio econômico.

A Federação das CDL’s do Ceará, acostada às lições Keynianas que o Estado demora a admitir, vem insistindo que o antídoto recomendado para a crise econômica, que se agrava dia a dia, não é o da austeridade fiscal.

Ao contrário, o que a instituição cedelista tem perseguido, tenazmente, como política anticrise eficaz que venha oferecer às empresas sobreviventes uma possibilidade de reequilíbrio de suas combalidas finanças, no período de convalescença (pós UTI), é o parcelamento total dos créditos tributários, gerados no período de paralisação das atividades ou já contemplados em REFIS anteriores, despidos de quais penalidades, multas ou acessórios, conferindo-lhes o prazo razoabilíssimo de dez anos para o resgate daquelas obrigações, contribuindo, destarte, para o saudável soerguimento.

O Estado deve abandonar a cultura cartesiana da busca do equilíbrio fiscal, aplicável em período de normalidade das atividades econômicas, com todos sacrifícios impostos aos contribuintes, e descer para a planície do “mundo real”, onde se assiste, dia a dia, a um desfile lúgubre de “sepultamento” de empreendimentos e dos sonhos que ali se encontravam agasalhados. Está passando a hora do Estado despertar para a realidade e abandonar a política conservadora de resultados e passar a “enterrar garrafas pela manhã e desenterrar ao final do dia.”

Pense nisto...

Francisco Freitas Cordeiro é presidente da Federação das CDLs do Ceará

 

 

 

Os textos publicados nesta coluna não refletem o posicionamento do Grupo Cidade de Comunicação.

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