05/02/2020 09:15
Alienação Voluntária
Imagem: Reprodução

Cada vez encontro mais pessoas que assumem que estão a um passo da alienação voluntária. Que abstraíram-se ou estão seletíssimas no que ouvem e leem. São aqueles que outrora eram "politizados", que opinavam e se colocavam.

Não que deixaram de ter opinião, mas simplesmente não querem mais emiti-las. Cansaram. Uma aparente desistência. Estão dentro de suas casas e nas casas dos seus, comunicando-se através de uma linguagem própria, como que concluindo: não tem mais jeito.

As justificativas são variadas: desilusão com a política institucional, decepção com os que diziam ser o governo do povo combinado com o susto do crescimento de figuras e posturas de um conservadorismo podre defendido até gente de convívio próximo, dentre outras tantas.

A violência real que mata uma geração e coloca o Brasil com números de homicídios comparáveis a países em guerra, sela a opção destes novos alienados, mas agora por vontade própria. Até um acréscimo no número de casos de suicídio percebemos, e o pior que entre os jovens, esperançosos naturalmente.

Essa indiferença talvez seja a mais cruel face da crise de toda ordem que vivemos, porque resulta de um pensamento lógico construído e conclusivo.

Os filósofos do pessimismo tomam vida mais uma vez através do seu pensamento que se faz presente. Thomas Hobbes está em alta: "O homem é o lobo do homem, em guerra de todos contra todos." Como não, em várias situações cotidianas no Brasil de hoje, concordar com esse inglês do século XVII? E o Schopenhauer que entende que "O mundo é a minha representação." e de tal forma denuncia que neste mundo de representação as coisas têm existência meramente relativa. E ainda podemos citar o Doutor da Igreja Santo Agostinho, ao compreender que o fundador da Cidade Terrena foi o fraticida Caim, e, portanto, por aqui, não temos jeito a dar porque o vício impera. O que mais nos resta? De onde fazer renascer a esperança? Da arte! Mas até a arte está na mira do conceito monopolizador. Todavia,  ela, a arte, resiste bravamente, nem que amargamente, entre poucos, aqueles poucos, que declamam com a melancolia poética de Augusto dos Anjos: "Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja."

Vanilo de Carvalho, advogado, professor universitário, especialista em Direito Constitucional, mestre em Direito Internacional, conselheiro da Ordem dos Advogafos do Brasil, membro da Comissão Nacional do Exame de Ordem (Brasília) membro do Instituto Ph, membro da Academia Brasileira de Cultura Jurídica, Cavaleiro da Ordem de Malta (Roma), membro da Comissão de Justiça e Paz (vinculado à CNBB), escritor, analista político-social, educador jurídico.

 

Os textos publicados nesta coluna não refletem o posicionamento do Grupo Cidade de Comunicação.

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