29/05/2020 03:08
Entrevista com o medalhista olímpico, Ricardinho
“Giba era sempre o bom moço, o bonitão, o galã. Ele com certeza, por mais coisas de errado que fizesse, era sempre tido e visto como o bom moço”.

Há 18 anos morando em Maringá, no Paraná, e dirigente do principal time de vôlei da cidade, Ricardinho, um dos maiores levantadores de vôlei que seleção brasileira já teve, vive um momento de calmaria que define como paz e amor. Diferentemente do jogador com  características fortes, genioso, e que muitas vezes era tido como indisciplinado e brigão dentro e fora das quadras, conta que a idade trouxe grandes aprendizados. Aos 44 anos, aposentado há 02, o vovô Ricardinho divide o seu tempo no isolamento para cuidar do pequeno Lorenzo de 1 ano e 4 meses. O campeão olímpico fala da família, defende o presidente Jair Bolsonaro, lembra da briga com Bernardinho, que se sentiu sozinho quando mais precisou de um amigo por perto, e que a religião tem sido seu chamado atualmente.

De bem com a vida e muito sorridente, Ricardinho topou atender a reportagem por Skype. O jogador divide um apartamento confortável com a esposa e a filha mais nova, Bianca de 17, num bairro nobre de Maringá. A família reside próximo a outra filha do jogador, que é casada atualmente. O capitão da seleção conta que tem passado os dias de quarentena entre treinos e exercícios físicos dentro de casa para respeitar o isolamento social. Perguntado sobre a sua relação familiar, abre um sorriso largo e avisa que tem desempenhado muito bem a sua mais nova função: Avô do Lorenzo, Filho da primogênita Júlia. 

"Somos muito apegados. Montei uma pequena academia na varanda do meu apartamento, e ele [neto] me acompanha sempre. Ele me segue, me leva pra academia do prédio, cópia os meus gestos de exercícios, é meu amigão, meu parceirinho fiel. Fazemos muitas brincadeiras juntos, é sensacional, não tem como explicar. São momentos que ficaram eternizados. Momento muito feliz da minha vida”.

A fala mansa e pausada, nem parece do capitão do time com personalidade forte dentro das quadras, tido muitas vezes como polêmico e brigão. Ouro nos jogos olímpicos em Atenas, e prata em Londres, Ricardinho diz que a idade trouxe amadurecimento, e que muitas situações poderiam ter sido evitadas como brigas, confusões e cartões vermelhos. A vida ensina. Mas que não se arrepende de nada o que passou durante a sua carreira como titular da seleção. 

“Faria tudo de novo. Foi sempre por uma boa causa, sempre buscando um bem comum. Não me imagino com outra característica, como por exemplo do André Nascimento, com estilo do André Eler, do próprio Giba que sabiam lidar melhor com as derrotas. Eu sempre fui muito estressado, quando eu entrava em quadra eu me transformava para ir para cima do adversário. Fui treinado pra isso”.

Há 13 anos Ricardinho sofreu a maior decepação que um jogador pode ter no auge da carreira. Prestes a competir uma olimpíada dentro de casa, no Rio de Janeiro, o então treinador da seleção, Bernardinho, decidiu cortar o levantador do time na véspera da apresentação dos jogadores. 

“Foram muitos anos de convivência, muito tempo junto, a gente sempre discutia bastante. Ocorreu o desgaste da relação que resultou no meu corte. Fiquei muito magoado e chateado. O tempo passou, a história virou lenda, não há nenhum segredo de estado que não tenha sido revelado, e hoje dou até boas risadas de tudo o que foi falado e da situação”.

Neste momento, Ricardinho traz para a conversa momentos intensos que viveu dentro e fora das quadras com os colegas de seleção. Um em especial, com quem dividia bolas incríveis, e até o quarto quando estavam em viagem, é destaque no diálogo. 

“O Giba era um cara que sabia lidar muito bem com a derrota e com a vitória com a mesma postura. Guerreiro, lutador, e gostava de ganhar também. Mas em toda história tem o mocinho que é sempre o que dá entrevistas, que se destaca. E tem o maluco, descontrolado, nevoso, descabelado, como eu que passava direto e não queria papo com ninguém. Essa é minha personalidade e tive que assumir o ônus e bônus para seguir em frente, assumir ser o vilão”.

O jogador admite ter se sentido sozinho durante essa fase, e que muito disse me disse levou a história do corte em 2007 para proporções irreversíveis, impossibilitando sua volta ao grupo na época. 

“O vagão saiu do trilho e quando fui ver, já não voltou mais para o eixo."

Somente em 2010 o técnico e o levantador voltaram a se falar.  Em 2012 Ricardinho trouxe pra casa mais uma medalha no peito, desta vez de prata nos jogos olímpicos de Londres .

Atualmente Ricardinho vive um momento delicado como dirigente do Maringá Vôlei, onde um calote do principal patrocinador do time, deixou os jogadores com mais de 4 meses sem pagamento. Oito jogadores abandonaram o time em plena competição da Superliga, que mantinha o time Maringaense em sétimo na colocação da elite do vôlei brasileiro, um dos campeonatos mais fortes do país. 

“Foi um baque. A situação está nas mãos dos advogados. O contrato acaba este mês , e vamos definir o que fazer agora. Existe a possibilidade de levar o Maringá para o eixo Rio / São Paulo. Não vou desistir. Voltei às quadras para dar uma força moral aos meninos”, Ricardinho comenta dos três jogos que voltou como levantador, por falta de jogadores em quadra durante a Superliga deste ano. 

Os problemas financeiros, as dívidas; e o calote do patrocinador, fechou também o projeto social do atleta que mantinha mais de 400 crianças no esporte, inclusive sua filha mais nova. “A falta de categorias de base no Brasil é uma realidade no vôlei, o que dificulta o encontro de novos talentos no país. Eu comecei aos 9 anos. A busca de patrocinadores, então, nem se fala. A gente sofre na saúde, educação e no esporte. Imagina após a pandemia”, desabafa Ricardinho.

Política e Isolamento - Defensor ferrenho do presidente Jair Bolsonaro, Ricardinho acredita que o governo esteja no caminho certo. Na opinião do jogador, saúde e economia precisam caminhar juntas. Em Maringá, no Paraná, onde o jogador vive com a família, o isolamento social está um pouco diferente de outros estados. O governador Ratinho Júnior, do PSD, liberou a abertura do comércio, além das atividades essenciais como mercados e farmácias, que nunca fecharam. Os decretos foram mais maleáveis e a população não enfrentou o lockdown. Na cidade, mais de três mil casos de Covid-19 foram confirmados. “Não concordo em bloquear tudo e deixar todo mundo trancado dentro de casa. Repito, sempre com segurança, sempre respeitando o uso de máscaras, limite de pessoas e distância. O cidadão precisa trabalhar”, indicando que concorda com o isolamento vertical que o Governo Federal tentou implantar no início da pandemia, mas não conseguiu implantar por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que permitiu que governadores deliberem como os estados podem agir na crise do novo Coronavírus. 

Fé - Evangélico, o campeão olímpico torce que essa pandemia passe logo e que a importância da ajuda ao próximo se torne algo real. Ele lembra que se preocupa com o momento de isolamento, e reforça a necessidade da coletividade para a espécie humana. "Tenho medo que após a pandemia, as pessoas ainda fiquem presas nas suas casas, esquecendo do outro. Não vejo a hora de tudo isso acabar para voltar a frequentar com a minha família, os cultos de encontro com Deus e todos unidos na fé. Momento difícil, não quero me acostumar com o novo mundo". 

Ao comentar que tem vivido um dia após o outro, sem se preocupar muito com o futuro, Ricardinho me dá a deixa que eu precisava para propor uma brincadeira e descontrair um pouquinho a entrevista. 

Para quem eu levantaria uma bola?

Giba - Sim. O cara é o melhor da história com quem eu já joguei. Impossível não eu não levantar uma bola pra ele. 

Bruninho - Sim. Pelo esforço dele, por tudo o que ele já passou, e no grande jogador que se tornou. Somos amigos, um menino gigante. Tenho um carinho muito especial pelo Bruninho, e no cara que ele é. 

Bernardinho - Sim. Pela pessoa que ele é, pelo o que ele fez, pelo o que ele faz. Permanece sendo ícone extraordinário mesmo longe das quadras. Uma pessoa com quem eu aprendi muito, tanto com a convivência, como pela característica com personalidade parecida com a minha. 

Jair Bolsonaro - Sim. Um cara que está assumindo muitas broncas, num momento difícil e coisas inesperadas que vazam. Eu não gostaria de viver o que ele tem passado. O cara está com uma bomba nas costas dele. Não me arrependo do voto nele de forma nenhuma. Acredito no Brasil.

29/04/2020 03:54
O isolamento social trouxe meus monstros de volta

Medo de morrer, paranoia do invisível, isolamento social, confinamento dentro de casa e o pavor de ser a transmissora desta doença terrível, a covid-19, para os meus filhos ou aos meus pais

Pensamentos trágicos e desconexos durante a quarentena prometem me deixar maluca. Do pânico de transmitir o vírus para meu pai, que é paciente oncológico, até o medo de morrer e não ver os meus filhos crescerem.

Por alguns dias senti dor de cabeça, dor no corpo, falta de ar, calafrios. Fiz o exame, deu negativo. Os sintomas persistiram. O meu psicológico já estava enfrentando um medo irracional. Esses dias difíceis fizeram com que acordasse um monstro adormecido dentro de mim: o transtorno de ansiedade e o TOC voltaram com força, 20 anos após o diagnóstico.

O estresse elevado, o aumento do cortisol e a imunidade em baixa afetaram minha mente. Perdi três quilos em 12 dias. Por mais que tivesse alimentos dentro da minha casa, o meu cérebro pedia para eu racionar, assim não faltaria comida aos meus filhos. Sim, sempre são pensamentos horríveis, dramáticos. Essas doenças mentais roubam o seu tempo, arrancam a sua autoestima, anulam consomem o seu psicológico, a sua personalidade.

O ritual de limpeza minuciosa em casa se estende todos os dias deste confinamento. É cansativo demais para o corpo e o cérebro. Minhas mãos estão descascadas de tanto lavá-las e passar álcool em gel, além de usar outros produtos fortíssimos para matar germes e bactérias. Rituais sem fim. Um dia me peguei passando o mesmo álcool na casca de uma manga. Pensei: surtei de vez. Foi aí que procurei meu médico. A dose do ansiolítico precisou ser aumentada anos depois do tratamento que mantinha a situação sob controle.

Por muitos anos senti medo, me afastei, me anulei. É triste e solitário se esconder atrás do que só existe na sua cabeça. A mente doente é tão poderosa que faz você ouvir vozes que não existem, reagir ao desconhecido e sofrer um isolamento sem fim. 

Disfarcei o meu transtorno para manter o emprego, a fim de que as pessoas gostassem de mim, e também para não afastar meu namorado na época, hoje marido e pai dos meus dois filhos.

Aos 46 anos, vivo uma vida normal, com terapia e medicação, porém, nem sempre foi assim.

Nunca imaginei que pudesse ser portadora de um transtorno mental. Pensava: como assim? Uma pessoa bem-sucedida, inteligente, atraente, com tudo o que precisa, ser doente da cabeça? Não posso aceitar. O primeiro impacto é a negação. A gente chega a pensar que doenças mentais são coisas de pessoas  malucas, e eu não queria ser rotulada como “louca”. Não, não é bem assim. Os transtornos não possuem cura, mas existem tratamentos que fazem você ter uma vida sob controle, comparável aos  pacientes que tratam a hipertensão, diabetes ou cardiopatias.

Mas admito que sofrer de ansiedade é brigar diariamente com os monstros que invadem e consomem a sua cabeça. Uma aflição sem fim. Acredite: esses monstros fazem você acreditar que eles estão no comando.

Lembro da minha primeira manifestação de ansiedade, ainda criança, aos 7 anos de idade. Época em que perdi o meu avô paterno atropelado, uma morte trágica.

Segundo meu terapeuta, esse foi o primeiro episódio de trauma que desencadeou os sintomas ainda na infância. Sofri bullying numa fase da vida em que essa atitude destrutiva não tinha nem nomenclatura. Estudava em um colégio de freiras, e a cada ataque de ansiedade com tiques nervosos, elas me levavam para a capela. Eu era obrigada a me ajoelhar e pedir perdão a Deus por meu comportamento, ainda que não tivesse cometido nenhum pecado. Uma criança de 7 anos é pecadora de quê?

Esquizofrênica, paranoica, maluca, pirada, doida... Esses foram alguns dos apelidos que me deram ao longo daqueles anos. Pouquíssimas pessoas se mostraram empáticas para tentar entender o que havia de errado comigo.

Só procurei ajuda médica, e de forma emergencial, mesmo depois de anos do primeiro diagnóstico, quando engravidei da minha filha mais velha. Hoje Nina tem 14 anos, é uma menina linda. Tive depressão pós-parto. Cheguei a ficar 10 dias sem conseguir tomar banho sozinha. Quando abria o chuveiro, queria ficar mais de 3 horas debaixo da água. Na minha cabeça, eu nunca estava suficientemente 'desinfetada' para cuidar do meu bebe. Cheguei a ferir os meus mamilos de tanto esfregá-los, com medo que pudesse passar algum tipo de vírus ou bactéria para minha filha por meio da amamentação.

O monstro que estava adormecido, acordou. Então me resta respirar fundo, me acalmar, desacelerar e aproveitar esses dias de resgate pessoal para buscar o equilíbrio e virar mais uma vez a página. Tudo passa, esse pesadelo também vai passar. Uma lição esse confinamento me deu: precisamos urgentemente falar a respeito de saúde mental e buscar o equilíbrio para vencer os monstros que insistem em se apoderar da nossa mente.

Texto: Patrícia Calderon, jornalista, mãe de Nina, de 14 anos, e  Benjanim, 5. Portadora de transtorno de ansiedade e TOC. Criadora do podcast sobre saúde mental 'Não Pira, Respira' (Disponível gratuitamente no Spotify).

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