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Mensagens mostram detalhes sórdidos da violência doméstica

Irmãs conversavam via WhatsApp e relatavam detalhes dos abusos que sofriam
Postado em 08/03/2018 | 21:34

Duas das quatro garotas conseguiram se livrar dos abusos. Uma delas fugiu de casa um dia depois de ser estuprada às vésperas do almoço. O pai a levou para o quarto, enquanto outra irmã escutava, aos prantos, os gritos da vítima, mas sem força para fazer algo em socorro da familiar. "Eu e as profissionais [psicólogas] ficamos impressionadas com o teor dos diálogos. Depois que falavam dos abusos, elas falavam sobre assuntos domésticos, como se aquilo fizesse parte da rotina delas", explicou a delegada. "Um dos crimes foi cometido na hora do almoço. Depois elas retornaram às atividades do lar. Outras situações estão no celular que foi apreendido, onde elas trocavam mensagens com as irmãs mais velhas", disse a delegada Gabriela Barreto, titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em Icó, 375 km de Fortaleza, onde os crimes começaram a acontecer há 16 anos. Eram quatro jovens. Todas foram iniciadas sexualmente pelo pai, com consentimento da mãe. O casal foi preso nesta semana, pela Polícia Civil. 

Uma das filhas, responsável pela denúncia, hoje é casada. Mas ainda guarda muitos sintomas negativos dos tempos em que morava com os pais. "Ela chorou durante o depoimento", recordou-se Dra. Gabriela. A vítima faz acompanhamento psicológico e já tentou tirar a própria vida. 

Todos os crimes eram presenciados e aceitos pela matriarca, que chegou a se envolver sexualmente com as filhas em algumas situações. "Até o presente momento, concluímos que havia a prática de sexo oral com as duas [filhas] mais velhas. Eles [casal] pediam que elas tirassem a roupa e mãe chegou a beijar na boca delas", descreveu. 

"Quando as meninas estavam crescendo havia um acordo, digamos assim, que determinava que o primeiro homem delas seria o genitor. No meu entender, algo que foi pensado por uma mente doentia", disse o delegado Levy Louzada, titular da Delegacia De Combate A Exploração Da Criança e Do Adolescente (Dceca). Um dos crimes após a perda da virgindade, aconteceu quando uma das filhas já namorava. Ela foi obrigada a ligar para o namorado e conversar normalmente com ele, enquanto acariciava o órgão genital do suspeito. 

O delegado, que participou da prisão do casal, acredita que as duas irmãs mais velhas eram mais cientes de toda a problemática que a violência doméstica poderia gerar. Para as filhas mais novas, ainda era algo bem confuso. "As crianças conviviam com os suspeitos. O que acaba gerando um vínculo", disse. "Acredito que elas não tinham noção do tamanho da agressão que sofriam. Elas tem baixa auto-estima, são tristes e só falaram depois que conseguiram se sentir confiantes com os profissionais que acompanharam o caso", disse Louzada. "Sem dúvida era um ato de submissão ao genitor", finalizou. 

Dra. Gabriela concordou e disse que todas eram cientes, mas para as mais novas, sobretudo para a menina de 15 anos, a situação ainda era um pouco confusa com relação à mãe. "Notei que o sentimento de ódio era mais confuso com a genitora, enquanto com o pai, realmente existia uma mágoa maior", explicou. 

O casal se mudou de Icó para a capital em meados de 2012. Para os vizinhos, eram pessoas comuns. Uma mãe que cuidava das filhas, enquanto o pai vendia marmitas para manter o lar. "Quem via aquilo, não imaginava o circo de horrores que tinha naquela casa", disse Louzada. 

A psiquiatra Sahika Yuksel, classificou o estupro como "um ataque". A especialista afirmou que se trata de uma relação de poder, onde a vítima seria a vitória que o criminoso quer alcançar. A psicóloga Arielle Sagrillo afirmou que se tem uma noção que casos de estupro são cometidos por agressores psicopatas, "monstruosos". Entretanto, eles podem ser pessoas consideradas normais, que aparentemente não possuem nenhuma patologia. Por isto, existe uma dificuldade, até para a vítima, reconhecer um culpado. "Para elas é dificil diferenciar o abuso em pessoas que as protegiam em outros aspectos da vida", completou o médico psiquiatra Fábio Gomes. 

A pesquisadora Arielle Sagrillo ainda destacou que falta preparação para acolher bem as vítimas que procuram as delegacias para denunciar, resultado do que chama de "cultura do estupro". Perguntas como: "Que roupa você estava usando?", "será que você não provocou?" e "você vai denunciar mesmo, não quer voltar para casa e pensar melhor?", são frequentes e acabam afastando as vítimas.

 

 

 
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