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Facção busca consolidação no Ceará atraindo menores

Final de semana é considerado o mais violento do ano, com 47 óbitos. Entre as vítimas, 14 morreram na maior chacina da história
Postado em 29/01/2018 | 18:54
Foto: WhatsApp/TV Cidade

O Forró do Gago, no bairro Cajazeiras, em Fortaleza, foi o cenário que elevou à guerra entre facções criminosas no Estado às capas de jornais nacionais e internacionais. Durante a madrugada de sábado (27), integrantes de uma facção invadiram um clube e mataram 14 pessoas, na maioria, pessoas sem relação com o crime organizado. Esta foi considerada a maior chacina da história do Ceará e uma das maiores tragédias do país. Porém, a incidência de homicídios não acabou naquela madrugada. Outras 33 pessoas foram mortas na capital e Região Metropolitana, segundo levantamento extraoficial, realizado pela TV Cidade Fortaleza. A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), que apresenta dados diários sobre Crimes Violentos Letais, como são tipificados os homícidios, ainda não divulgou dados oficiais sobre o fim de semana. 

Apesar do clima de tensão constante, o atual titular da SSPDS, o delegado André Costa, garantiu que está tudo sob controle. A declaração, diante da tragédia e do crescente número de homícidios, foi contestada por especialistas. "Eu acho que o Doutor André não contribuiu em nada com esta fala. Ele é esforçado, é um bom delegado, mas precisamos de um secretário que esteja em gabinete, coordenado, pensando e executando estratégias contra o crime organizado", comentou o presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (Abracrim), Cândido Albuquerque. "Ele [secretário] tem que ter humildade e reconhecer que a situação do Estado é crítica. Estamos vulneráveis. Somente no ano passado foram mais de cinco mil mortos", comentou o advogado Márcio Victor, presidente da Comissão de Direito Penitenciário da OAB-CE.

Na Cajazeiras, o crime é atribuído a uma facção criminosa cearense, que busca consolidação no Estado. Para o sociólogo do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Barreira, as facilidades e as promessas de realização de desejo, aliciam os jovens para a entrada no crime organizado. O presidente do Conselho Penitenciário do Ceará (Copen), Cláudio Justa, concordou com o especialista. "A Guardiões do Estado [facção] tenta se impor pela força, pela crueldade. Eles querem tomar território de outras facções e para isso, usam quem está mais vulnerável, atraindo jovens de periferia. Não precisa pagar taxa mensal, não existe um código de conduta, para se diferenciar das outras", disse. Ainda segundo o presidente, atos como a chacina do fim de semana são considerados atos de bravura que mostra a capacidade de permanência no crime organizado. "Eles [jovens] encontram nas facções, a possibilidade de ascender socialmente na comunidade em que estão inseridos. São pessoas com poucas expectativas e que de repente, são convidadas por traficantes para ganhar o que não ganhariam no mercado formal de trabalho com a pouca capacitação que possuem", completou. 

O presidente da Abracrim, Cândido Albuquerque, afirmou que as chacinas poderiam ter sido evitadas, caso existisse planejamento para combate ao crime organizado. "Você só combate as facções com investigação de inteligência. Estamos denunciando a presença desses grupos há anos", comentou o advogado, que denunciou: "O Governo do Estado aceitou entregar o comando dos presídios para as facções. Quer dizer, cada unidade é comandada por um grupo. Eu nunca vi isso em canto nenhum". O advogado ainda afirmou ser importante que a Corregedoria Geral da Disciplina (CGD) participe das investigações. "Eu gostaria que me garantissem que não existe ninguém das Polícias do Estado com envolvimento em facções. Em alguns lugares, foi comprovado que existiam Batalhões que davam cobertura aos líderes destas facções". 

Após o fim de semana sangrento, o presidente do Conselho Estadual de Segurança Pública, Leandro Vasques, reafirmou que discutirá a possibilidade de intervenção federal no Estado. Para Márcio Victor, a discussão deve englobar Município, Estado e União. "A situação é delicada, emergencial. O que estamos acompanhando não é normal. Chacinas, ataques a prédios públicos, expulsão de moradores, enfim, tem que se discutir o envio de tropas federais, como aconteceu no Rio Grande do Norte, por exemplo", comentou. 

Dor e medo das famílias
Algumas das vítimas da maior chacina do Estado já foram veladas e sepultadas. No bairro Serrinha, em Fortaleza, a família de José Jefferson de Souza Ferreira (21), clama por Justiça. Com medo, os parentes não quiseram gravar entrevista com a TV Cidade Fortaleza, mas pediram que o caso não caísse no esquecimento. Durante o velório, dois veículos suspeitos passaram pela rua mais uma vez. Assustados, os familiares pediram que uma equipe do Batalhão de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (BPRaio) da Polícia Miitar do Ceará ficasse próxima. 

Suspeitos foram presos em funeral na Pacatuba. (Foto: Divulgação/PMCE)

Além de Jefferson, outras 13 pessoas foram mortas. 8 mulheres e 6 homens, que ainda tentaram salvar suas vidas, mas a aleatoriedade com que os disparos foram efetuados, impediu a fuga. As vítimas já foram identificadas pela Secretaria de Segurança do Estado. Três já foram presas anteriormente. Ainda no sábado, um homem suspeito foi preso com um fuzil. Hoje, sete suspeitos foram presos no velório de uma das vítimas, em Pacatuba, Região Metropolitana. Os homens foram identificados como: Francisco Cleidson de Araujo Tomaz, Ronaldo de Oliveira Castro, Elias Gadelha de Araújo, Fábio Lopes da Silva, Victor Max de Freitas e Dhojohn Rodrigues da Silva. De acordo com a Polícia Militar, todos negaram relação com o crime organizado. 

Balaclavas encontradas
Durante a tarde desta segunda-feira (29), um homem foi preso na comunidade Alto da Mangueira, em Maracanaú, Região Metropolitana. A Polícia Militar foi acionada para atender uma ocorrência de agressão contra uma mulher. O suspeito, José Leandro Bernardino de Moura (33), teria sido impedido pela vítima, de esconder um saco dentro da casa onde aconteceu a agressão. Dentro do saco, foram encontrados três coletes à prova de bala e nove balaclavas que podem ter sido utilizadas no "Massacre das Cajazeiras", como a chacina é chamada. Leandro negou envolvimento com o crime organizado e disse que encontrou tudo em um lixão. 

Segunda chacina
Nesta segunda-feira (29), uma nova chacina foi registrada no Ceará. Desta vez, 10 presos foram assassinados dentro da Cadeia Pública de Itapajé. A Secretaria de Justiça confirmou os óbitos e informou que grades das celas foram serradas e policiais militares e agentes penitenciários foram acionados para conter a confusão. Não há confirmação oficial sobre a relação entre as duas chacinas. 

 

 
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